A agonia feia do PSD

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/01/2024)

PSD está fora do Governo há oito anos e, dizem as sondagens e a percepção política, muito provavelmente vai conti­nuar fora depois de 10 de Março. É demasiado para um partido que, mais do que qualquer ideologia identitária, mais do que qualquer filiação numa família política, tem, na sua natureza e no seu historial, a conquista do poder, a governação do país, como objectivo principal. Ao contrário do PS, do PCP e mesmo do CDS, o PSD não tem parentesco reconhecido nem fidelidade ideológica reconhecível. Alguém disse um dia que o PSD era o mais português dos partidos portugueses, com uma penetração social, etária e geográfica onde se podiam acolher todos os eleitores. Um partido nascido não para preencher um espaço político vazio mas para apresentar uma agenda essencialmente centrada na resolução de problemas concretos e apostado numa boa governação. Isso fez dele desde sempre um partido vocacionado para governar ou a alternativa real e permanente ao poder do PS: esteja no Governo ou na oposição, a mensagem-chave do PSD foi sempre essa — a alternativa. Foi isso que fez o sucesso eleitoral — para muitos então inviável — da AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles. Num contexto histórico em que parecia só haver uma solução à esquerda — com a esquerda civil e militar — e com uma Constituição que reclamava de qualquer Governo um “caminho para o socialismo”, a AD soube romper com o colete de forças estabelecido e impor-se como uma alternativa — no campo político, no campo económico e na vontade de transformação do país. Subscreva-se ou não o ideário político e o caminho seguido então, a AD de 1979 foi uma revolução dentro do regime. E a saú­de da nossa democracia teria sido bem pior sem essa revolução.

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Mas passaram-se muitos anos desde então. Olhamos para os homens e mulheres da AD de então — como poderíamos olhar para a composição da Assembleia da República à época — e, para aqueles que se lembram, é impressionante e assustadora a comparação. Mas esse não é um problema específico do PSD nem sua culpa exclusiva: o nível dos agentes políticos de hoje, quer em qualidade quer em quantidade, é infinitamente pior do que foi na década seguinte ao 25 de Abril e genericamente pior do que foi daí em diante. Várias razões contribuíram para isso, mas nenhuma tanto quanto o sentimento popular de eterna desconfiança, de suspeição permanente e mesmo de pura e deslocada inveja. Da imprensa à justiça, dos jornais aos cafés, os políticos são hoje vistos quase como assaltantes do poder, alguém que, por definição, está ali não para servir o país mas a eles próprios, agarrados a lugares cheios de mordomias e vencimentos altíssimos — uma extraordinária mentira que nenhuma maioria parlamentar se atreve a desfazer. Se, por um lado, me pergunto muitas vezes quem é que ainda quer fazer carreira política ou governar o país, por outro lado, pergunto-me também se os portugueses gostariam antes de viver sem Governo nem políticos eleitos, em democracia directa, legitimada nas redes sociais.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Todos foram, pois, desertados dos melhores: dos melhores quadros, dos melhores deputados, dos melhores governantes. Mas o PSD, talvez porque, sendo um partido de poder, há tempo demais está afastado dele, parece ter sido mais abandonado do que todos os outros. Basta comparar a AD de então com a agora ressuscitada nominalmente: Montenegro é, obvia­mente, uma sombra de Sá Carneiro, e não é por o invocar todas as manhãs que o seu espírito o iluminará; Nuno Melo não se compara a um Amaro da Costa ou Lucas Pires, e, tendo sido um bom deputado na AR, preferiu depois o conforto de Bruxelas do que o desconforto da travessia do deserto, na oposição — aliás, como Paulo Rangel, que preferiu abdicar de um futuro que parecia brilhante no PSD para se acolher também a Bruxelas, onde, tal como Nuno Melo, apenas se distinguiu por fazer política interna à distância no Parlamento Europeu, ambos tão obcecados na sua raiva aos governos do PS daqui que por vezes nem se davam conta de que era o país que atacavam e não o seu Governo; e, enfim, Gonçalo da Câmara Pereira, que Montenegro se lembrou de ir buscar ao baú de memórias do PPM, comparado com Gonçalo Ribeiro Telles, não passa de um artista de variedades. Não é apenas por culpas alheias e razões comuns a todos que o PSD viu afastar-se tanta gente de valor, como Jorge Moreira da Silva, para citar apenas um caso gritante de desperdício. Não é por acaso que, no recente congresso ou na apresentação da nova AD, o PSD tenha recorrido aos que considera glórias do seu passado longínquo ou mais próximo, para os exibir nas primeiras filas. Porque, na ausência de outros que o país reconheça, o partido propõe-se enfrentar o futuro com a gente do passado — não para governar, porque já estão reformados, mas para avivar memórias que têm por boas.

Esse é outro ponto: porque não tem ideias para o presente nem qualquer visão de futuro, o PSD vive a invocar memórias. E, às vezes, desastradamente: ao contrário do que quer imaginar, o país não guarda boas memórias de Cavaco Silva — basta recordar os índices de popularidade com que saiu de Belém e o imenso suspiro de alívio que se escutou então, desde Alfândega da Fé até à ilha do Corvo. E os portugueses também não guardam, ao contrário do que eles supõem, gratas memórias do Governo de Passos Coelho: uma coisa é a simpatia de que ele, pessoalmente, gozava ou a justiça histórica de reconhecer que teve de governar com o programa da troika e toda a brutalidade que isso implicava; outra coisa foi a sua aposta de ir ainda “além da troika”, de empobrecer todos gloriosamente, as centenas de milhares de despedidos, as empresas falidas, todas as jóias da Coroa vendidas ao desbarato, um aeroporto transformado em palco de famílias destroçadas, despedindo-se dos jovens, que abandonavam “a sua zona de conforto”. Ninguém quer reviver esses tempos, e o PSD tem obrigação de ter qualquer coisa de infinitamente diferente e melhor para propor.

Mas, justamente, e esse é o ponto essencial: não tem. É inacreditável como é que um partido que esteve oito anos na oposição, que disse e repetiu estar pronto para governar em qualquer altura, afinal não está. Não tem um “Governo-Sombra” ou alguém que se tenha destacado em qualquer área de modo a podermos adivinhar como será um Governo seu; não tem nenhum esboço de programa de Governo que permita comparar alternativas para cada sector ou para cada problema; não tem sequer uma meia dúzia de ideias claras para o futuro do país que possam levar os eleitores a perceber a diferença. Na oposição, o PSD passou a vida a denunciar os “casos e casinhos” que atormentaram o Governo, mas a isso pareceu ter-se resumido toda a sua oposição: fora dos “casos e casinhos” alheios, o partido nunca lançou um caso, uma causa, uma proposta de solução própria para problemas concretos. E mesmo agora, em plena campanha eleitoral, toda esta AD, inspirada em Montenegro, acha que lhe basta atacar o PS e a sua governação para seduzir os eleitores. Que lhe basta reclamar do caos na Saúde, da falta de professores nas aulas ou da falta de casas no mercado, sem ter de apresentar alternativas ou soluções próprias. E mesmo naquelas áreas em que historicamente o PSD e a antiga AD se destacaram e lideraram, como no Ambiente, não há hoje nada senão memórias. Ribeiro Telles, Carlos Pimenta, Macário Correia, todos eles lançaram as bases de uma política ambiental visionária, que o tempo e os interesses foram depois corroendo aos poucos. Mas que é hoje mais premente que nunca, com a transformação energética, as políticas de descarbonização, as opções agrícolas e urbanísticas, num quadro de uma dramática falta de água. Tudo preocupações a que os socialistas sempre foram e continuam alheios e indiferentes e que, todavia, em termos eleitorais, poderiam marcar uma diferença e atrair eleitorado jovem ou esclarecido. Mas este é apenas um exemplo daquilo que o PSD podia ter estado a fazer e não fez para se apresentar ao país como uma alternativa real.

Eis a dura realidade: disse mais Pedro Nuno Santos em 20 minutos de discurso sobre políticas alternativas e preocupações de futuro do que o PSD em oito anos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Um pensamento sobre “A agonia feia do PSD

  1. Não queria falar em partidos ,mas no Portugal decadente político…

    Ou ainda ninguém percebeu isso?

    Sensação de declínio… Seria uma questão de tomar consciência de que se trata de factos e não de uma percepção vaga.
    Podemos mentir para nós mesmos por um tempo, mas a realidade vai chegar.

    O declínio é gritante. Neste país, o sentimento de pertencer a uma nação não existe. A pressão financeira está cada vez pior. Os Serviços Públicos e privados são catastróficos e, quando digo catastrófico, pondero as minhas palavras, é muito pior do que isso. Estamos num país que esconde muitas coisas debaixo do tapete por falta de coragem, por medo de mudar, para manter um status quo que já não faz sentido apesar de tudo. Este país está a afundar-se, este país já não tem energia e desejo e ninguém é capaz de devolvê-lo, especialmente o actual panorama político que é composto apenas por pessoas inúteis de classes sociais que nada compreendem sobre a vida.

    Por que estamos em declínio?…. Então, vejamos: o sistema educativo entrou completamente em colapso e a mediocridade tornou-se a norma lá, o sistema de saúde já não funciona, o sistema judicial já não se tornou uma espécie de partido político cujo interesse não reside na proteção dos Portugueses, o crime explode por toda a parte e o grau de barbárie com ele, a nossa indústria foi sacrificada, pelo que nos tornámos dependentes das importações em sectores estratégicos.
    A lista poderia ser ainda mais alargada (o colapso do poder de compra, a aquisição de casas tornou-se quase impossível para os mortais comuns, etc.).

    Vivemos numa era bastante orientada para a desconstrução, para o questionamento e para um “farto” dos velhos padrões rígidos, que foram muito questionados nos últimos anos (e tanto melhor.). Por outro lado, esta desconstrução positiva, porque é um sinal de um desejo de viver uma vida mais voltada para dentro do que o materialismo, mas com autonomia, abertura e introspecção, é arqui parasitada por um desejo de alguns (especialmente entre pessoas que ocupam uma posição de autoridade pública) de preservar princípios obsoletos e rígidos, associados ao antigo sistema tradicional, cujos valores são por vezes duvidosos e muitas vezes “fora da marca”.

    Este sistema, através destas pessoas, não se adapta à mudança de mentalidade geralmente muito positiva que observo na grande maioria das pessoas, e parece mais querer prejudicar e quebrar as pessoas do que qualquer outra coisa. Embora cada vez mais pessoas pareçam querer avançar, uma minoria, infelizmente numa posição de algum poder, está a travar esta bela dinâmica.

    Não se pode salvar um país com aqueles que querem destruí-lo!
    Mas há uma grande parte das pessoas que ainda não entenderam isso ou “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, o que implica que às vezes tem que aliar-se a outro inimigo para derrotar o maior inimigo (comum). Não é a chamada “extrema esquerda” ou a “extrema direita”, o verdadeiro problema, o “centro extremo” é oculto de um monte de coisas niilistas, Europeístas, globalistas, atlantistas, oligárquicas, financeiras, etc… muito prejudicial e tóxico para nós e para o nosso futuro.

    Isso não é específico para os políticos, excepto que os políticos, por suas funções, geram situações que nos prejudicam a todos!!!
    Mas somos todos, totalmente responsáveis por isso!!!

    Também o jornalismo não está realmente à altura da tarefa, finge não compreender nada.

    A realidade é que demora muito tempo a conhecer todos os programas, todos os candidatos de cada eleição, ouvindo os seus discursos ou entrevistas. Mas, na realidade, a Política Não interessa a todos os cidadãos, que, portanto, não têm tempo para descobrir e, portanto, votam frequentemente influenciados pela sua família, amigos ou meios de comunicação social.

    Estamos a ver pessoas superexpostas nos meios de comunicação social que dizem disparates cada vez mais grotescos, que dificilmente podemos imaginar que eles próprios acreditem.
    Todos sabem que isso é absurdo.
    Todos pensam que é ridículo.
    Mas é necessário que o circo ainda corra mais antes da falência.
    Essas pessoas estão acabadas e fingem ignorá-lo.

    Estamos a nadar em completo delírio no Barbeiro de serviço …!!!
    Como podemos fazer um cocktail (de religião + política) se não fumar as pessoas muito, muito fracas…

    O que vejo?
    Oportunismo político!

    Os discursos estão longe de serem delirantes, vão esconder cada vez menos as suas convicções. O truque do Diabo era fazer parecer que ele não existia.

    Portugal caminha para o fim tal como conhecemos!

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